Tinha que dar um jeito de inverter a situação. A ordem era ser seduzida. O gosto é sempre mais picante quando o homem se acha o dono da situação. Mas que diabo de passo largo! Com minhas belas e longas pernas, mas num corpo de 1,59m, seria quase impossível andar à frente dele. Febrilmente pus os neurônios em busca de uma solução. Não foi preciso. Ele iria atravessar a rua e o sinal estava fechado.
Atravessamos juntos. Na faixa, como politicamente corretos transeuntes. Eu, equilibrando passadas largas no salto alto. Ele, largadão na sua calça jeans (se fosse uma lewis azul clara eu cairia a seus pés) e na camisa solta. Nem aí pra mim, o sacana.
Eis que a sorte me ajudou. Ou o pé prejudicado. Ele, o direito, virou. E fui toda sobre ele. Foi surpresa até pra mim – já que minha intenção era chamar atenção pelos meus dotes físicos, não pela minha des-coordenação motora. É claro que ele se assustou e no reflexo duas mãozonas me agarraram. Ainda não refeita do susto, olhei-o com carinha de anjo. Me endireitei, agradeci e tentei seguir em frente. Manquei como uma moura torta e me xinguei de todos os nomes feios que na infância me proibiram de falar.
De repente, não mais que de repente, sinto uma mão no meu braço. Meu corpo pressentiu: era ele. “Deixa eu te ajudar. Você se machucou?” A pavão-fêmea dentro de mim se eriçou. Não era nada disso que eu queria. Mas uma deusa que se preze não perde oportunidades fortuitas. Preparei meu sorriso mais inocente e dei corda à sedução do macho.
Não deu outra. Na tarde seguinte, estávamos tomando chope no shopping ao lado dos motéis mais caros de BH. Obviamente, escolha minha. E obviamente também, eu ainda me mostrando encantada como se fosse uma menina de estrelas nos olhos a ponto de se entregar ao seu ídolo roqueiro.
Não foi naquele dia. Nem no outro. O cara era um expert em sedução. E estava cumprindo direitinho todos os passos da cartilha. Cada encontro, mais charme, mais sedução. De ambos os lados. Era a guerra dos sexos. Surda, cega e muda. Apenas os sentidos fazendo as alamedas que levariam à praça onde um de nós seria troféu, o outro subiria ao pódio.
Aconteceu. Duas semanas depois desvendamos os primeiros segredos, os mais superficiais. E aos poucos, todos os véus foram caindo. Descobrimo-nos apaixonados. Ele, cuidando amorosamente do meu pé, das horas que roubei ao tempo, dos sentimentos que teimavam em nascer em mim. Eu, comprando roupas novas para sua garotinha de 5 anos, administrando a trancos e barrancos seus momentos de amante, seu tempo de pai. Ele, viúvo. Eu, casada.
Durou pouco. Durou até eu perceber que não queria, não devia, não podia ser a mãe daquela garota. E não conseguia mais tê-lo apenas numa cama de motel. Eu ainda não sabia que entre uma face e outra de uma mesma moeda pode ter apenas coração.
Depois deste longo texto, você leva todos os meus beijos. Se quiser, onde quiser!
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